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sábado, 23 de abril de 2011

A Especial e o Vadio



Uma mulher, sentindo-se desesperada face a vários aspectos da sua vida, decidiu procurar algum conforto num passeio pelo parque. O vento na cara, o chilrear dos pássaros, o riso das crianças na caixa de areia... nada promoveu um aligeirar do peso que sentia quando pensava nas suas circunstâncias...

Agarrou no seu leitor de mp3, colocou os headphones e decidiu apelar ao poder da música. Começou a ouvir as músicas que normalmente ouvia, as suas preferias, uma coleção de temas lentos e melancólicos. Pareciam-lhe muito adequados ao seu momento atual.

Ao fim de algum tempo, a sua mente começou a "viajar", envolta na música. Sentindo-se cansada do passeio, sentou-se num banco do parque. O sol bateu-lhe com gentileza nos olhos, que fechou momentaneamente. Quando os abriu, percebeu que um vadio a acompanhava agora no banco. Sentado no lado oposto ao da mulher, parecia fitar o infinito, com um sorriso enigmático a ocupar-lhe os lábios. "Certamente um louco", pensou a mulher. O cansaço levou a melhor e a mulher tornou a cerrar as pálpebras.

Desta vez, entrou num nível mais profundo de relaxamento. Parecia sonhar, embora conseguisse ainda fazer escolhas conscientes em relação ao sonho. Nesta espécie de transe, começou a elaborar um rol de queixas em relação à sua vida... o dinheiro que nunca chegava para pagar as despesas no final do mês, a relação sentimental que desejava e não aparecia, o salto profissional que tardava em acontecer... apercebeu-se momentaneamente que talvez estivesse a verbalizar mesmo as queixas e que, envolvida pela música, talvez estivesse a falar alto... por uma vez na vida, não se importou, sempre era um certo alívio...

Ao fim de quase uma hora, abriu os olhos, subitamente desperta pelo fim da música no mp3 sem bateria... Levantou-se e afastou-se do banco... quando o fazia, ainda com os headphones nos ouvidos, pareceu-lhe ouvir uma voz... "eu sou um vadio e louco, pensa ela, enquanto ela própria vadia pela amargura da melancolia, enlouquece num mar de queixas que apenas aguarda a sua determinação para se abrir num jardim de possibilidades... tem é a mania que é Especial, tão Especial que temos de aturar as suas tretas miserabilistas em vez de beneficiarmos das suas atitudes altruistas, temos de levar com o seu egoísmo exacerbado tipo coitadinha de mim, em vez de levarmos com a sua confiança musculada tipo eu posso e consigo... fónix, que quase me tirou o sorriso da cara, esta gaja com a mania que é Especial..."

Durante todo este tempo, a mulher manteve-se imóvel. Quando finalmente se voltou, nem sinal do vadio. Será que tinha existido mesmo? A mulher não sabia... Sabia apenas é que se sentia menos Especial... e isso fê-la sorrir pela primeira vez em muitos dias. enquanto apressava o passo como quem percebeu finalmente para onde ir...

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